Avenida Central: o marco de Pereira Passos

Brasil, Século XX Avenida Central: o marco de Pereira Passos
* Por Talita Lopes Cavalcante


Com o governo de Pereira Passos a cidade do Rio de Janeiro ganhou ares europeizados

Avenida Central, Rio de Janeiro, 1910. Foto: Marc Ferrez.

O período compreendido entre a segunda metade do século XIX e a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) ficou conhecido pelas significativas transformações tecnológicas e urbanas ocorridas em diversas partes do mundo. A introdução de novos hábitos nas residências, a disseminação da eletricidade e o surgimento ou ampliação dos setores industriais urbanos trouxeram consigo sensíveis alterações nas paisagens das principais cidades ocidentais nestes anos.

Termos como velocidade ou automóvel passavam a se popularizar e compor um imaginário eivado de otimismo acerca da perpetuação do que era visto como um conjunto de progressivas conquistas humanas na modernidade. Conhecida como Belle Époque, esta época ficou igualmente conhecida pelas impactantes transformações que se sucederam em algumas das principais cidades brasileiras.

Muitas vezes acriticamente subordinadas às tendências vindas da Europa, estas mudanças impuseram não somente mudanças tecnológicas, como também a necessidade da introdução de projetos de reforma urbana para com sensíveis problemas históricos existentes em nossas cidades, como os referentes ao saneamento e ampliação das redes de esgoto então existentes.

Dentro deste panorama se encontrava a cidade do Rio de Janeiro, então permeada por uma estrutura urbana em muito tributária do período colonial e diretamente impactada por um crescimento desordenado e não planejado a partir da segunda metade do século XIX que trouxe consigo diversos problemas sociais. Foi nesse período que Francisco Pereira Passos assumiu o cargo de prefeito da cidade, em um mandato notabilizado pelas reformulações e reconstruções empreendidas sobre a urbanidade do principal centro urbano do Brasil de então.

Contando então com quase um milhão de habitantes, o Rio de Janeiro passou por importantes mudanças durante seu mandato: dentre as várias modificações, foram ampliadas as redes de esgoto, abastecimento de água e iluminação pública, ruas foram pavimentadas e o sistema de transportes racionalizado. Baseando-se de maneira acrítica e autoritária em modelos europeus, Pereira Passos foi responsável por uma radical alteração na paisagem urbana do Rio de Janeiro, ocorrida durante a primeira década do século XX.

O primeiro e polêmico passo de sua política reformadora foi retirar e demolir os cortiços do centro da cidade, em medida conhecida como “Bota-abaixo”. Existentes e em crescimento desde fins do século XIX, os cortiços eram considerados habitações insalubres que favoreciam a proliferação de epidemias como varíola, cólera, febre amarela etc., então particularmente comuns na cidade. Nestes anos, a situação da saúde pública era tão séria que o porto carioca era temido pelos estrangeiros, que chamavam o Rio de Janeiro de “cidade da morte” devido às doenças.

Ainda que a preocupação com a saúde pública fosse uma realidade, estas reformas não deixavam de escancarar um contraste cruel: enquanto os proprietários dos terrenos onde estas ocorreram viram suas propriedades valorizadas com a modernização de seu ambiente ao redor, a população pobre da cidade se viu diretamente atingida pela precarização de condições de moradia no Rio de Janeiro, já então bastante dramáticas em virtude da limitada oferta de habitações.

Insensível a esta questão, Pereira Passos deu continuidade ao seu projeto: as ruas do centro foram alargadas com a demolição dos antigos casarões e toda esta região ganhou bulevares com edifícios no estilo francês, tudo visando criar uma nova identidade para a capital federal. Foram nestes anos, o Rio de Janeiro ganhou o apelido de Cidade Maravilhosa, ainda que as custas de um dramático impacto social pautado pelo início do processo de favelização de áreas da cidade.

Na foto encontra-se a Avenida Central em 1910, um dos marcos da administração de Pereira Passos.

Referência:
– ABREU, M..”Evolução Urbana do Rio de Janeiro”. Editora Jorge Zahar, 1988.