A casa dos mortos

Curiosidades, Século XIX, Século XVIII A casa dos mortos
* Por Talita Lopes Cavalcante


A morte apenas era dada como certa quando o corpo entrasse em putrefação. Caso contrário, ele permanecia em observação pelo tempo necessário.

A imagem, apesar de não estar exatamente relacionada a Casas dos Mortos, demonstra uma cena muito similar àquelas presenciadas nas “Waiting Mortuaries”, com os mortos em macas, um ao lado do outro, em uma grande sala de observação. Na foto, cadáveres estão dispostos em macas em um laboratório de anatomia no Rush Medical College. Foto: Wisconsin Historical Society. ID: 24273

Durante muito tempo a medicina buscou saber e estudar o exato momento da morte, mas certamente essa é uma dúvida que se mantém até hoje. Ainda hoje há muita controvérsia e opiniões conflitantes a respeito de quando, de fato, uma pessoa morreu; se foi no momento em que o coração parou de bater, ou quando o cérebro parou de funcionar permanentemente.

O fato é que, antes dos avanços que viriam no campo da medicina no século XX, os médicos do final do século XVIII e XIX possuíam as mesmas opiniões e indagações com relação à hora da morte, porém com menos recursos para a constatação um pouco mais precisa, ou a deixar menos dúvidas. Exatamente por tal empecilho, os anos de 1800 foram marcados pelo medo das pessoas serem declaradas mortas antes mesmo de estarem.

O receio era tanto, que os caixões começaram a ser produzidos com um buraco acima da tampa, onde passava uma corda que ficava presa à mão do defunto; na outra ponta, do lado de fora do caixão e acima da terra era colocado um sino. Caso a pessoa não estivesse morta e viesse a acordar, ela poderia tocar o sino, alertando o zelador do cemitério que em determinada cova jazia alguém ainda vivo.

De toda forma, os caixões “personalizados” não foram suficientes para abrandarem os temores dos contemporâneos do século XIX. A solução encontrada em alguns países, em especial na atual Alemanha, foi a construção dos “Waiting Mortuaries”, ou “House of the death” (Casa dos mortos / Casa da morte). Nelas eram destinados os corpos que ainda suscitavam dúvidas com relação à sua morte e, então, uma equipe especializada de médicos observava por horas e, as vezes, até dias se aparecia qualquer sinal de vida.

No meio da observação, em salas bem ornamentadas com flores, os médicos ainda se utilizavam de certos artifícios para acordar o “morto”, tais como gritar no ouvido do suposto defunto, espetar agulhas nas unhas, fazer cortes na palma dos pés, introduzir uma espécie de cano no ânus e soprar entre outros. Mesmo assim, imaginando que a pessoa pudesse acordar a qualquer momento, também eram disponibilizados sinos que ficavam presos a uma corda na mão da pessoa, caso ela despertasse.

A morte apenas era dada como certa quando o corpo entrasse em putrefação. Caso contrário, ele permanecia em observação pelo tempo necessário. Por fim, as Casas dos Mortos começaram a ser abandonadas na primeira metade do século XX com o avanço da medicina.

A imagem em questão, apesar de não estar exatamente relacionada às Casas dos Mortos, demonstra uma cena muito similar àquelas presenciadas nas “Waiting Mortuaries”, em que os parentes podiam visitar o morto enquanto este era observado pela equipe de médicos.

Referências:
– TEBB, William. “Premature Burial, And how it may be prevented“, pp. 335. Acessado em: 15 de agosto de 2013.
– BONDESON, Jan. “A Cabinet of Medical Curiosities“. Journal of The Royal Society of Medicine, Volume
91, 1998. Acessado em: 15 agosto de 2013.
“International perspective on the Diagnoses of Death“. British Journal of Anaesthesia. Acessado em: 15 de agosto
de 2013.
– Jan Bondeson, Buried alive: the terrifying history of our most primalfear, New York and London,
Norton, 2001, pp. 320.