Códigos lendários ainda não decifrados

Atualidades, Curiosidades, Idade Antiga, Século XIX Códigos lendários ainda não decifrados
* Por Talita Lopes Cavalcante


Alguns desses códigos estão relacionados à história de povos antigos, outros prometem revelar tesouros escondidos, além de códigos em esculturas criadas com enigmas dentro de outros enigmas e palavras aparentemente sem sentido escritas ao final de um livro. O que todos esses códigos têm em comum é o fato de que até hoje não foram decifrados nem mesmo pelos maiores e mais brilhantes criptógrafos do mundo. Talvez nunca se saiba o significado de muitos deles, porém suas respectivas histórias são incríveis.

— O mistério Taman Shud:

Na época ligaram a maleta, o livro, o pedaço de papel e o código ao homem achado morto na praia.

Esses códigos até hoje indecifrados foram encontrados atrás do livro The Rubaiyat pela polícia. Foto dos arquivos da polícia australiana.

Em 1948, durante um dia quente como qualquer outro na Austrália, um homem vestido de casaco foi encontrado morto na praia de Somerton, em Adelaide. Não havia nenhuma pista de sua identidade, tampouco impressões digitais que levassem a sua identificação. Após a realização da autópsia, o legista fez uma descoberta bizarra; o estômago do cadáver estava cheio de sangue e muitos órgãos haviam sido dilacerados.

Através de um bilhete de trem encontrado em um dos bolsos do casaco do homem desconhecido, a polícia chegou à estação de trem em Henley Beach. Na estação, foi encontrada uma mala cujo interior estavam alguns objetos sem valor e em um bolso secreto havia um pedaço de papel rasgado com uma única expressão: “Taman Shud”.

Até hoje a identidade do homem permanece um mistério

Imagem do homem achado morto na praia de Adelaide em 1 dezembro de 1948. Foto dos arquivos da polícia australiana.

O código ainda acompanhava um exemplar raríssimo do livro The Rubaiyat, do poeta, matemático e astrônomo persa Omar Khayyam. Curiosamente em The Rubaiyat, o último poema se chamava “Tamam Shod”, porém não conseguiam fazer uma ligação com a expressão escrita claramente errada no pedaço de papel.

Como se o caso já não estivesse estranho o suficiente, acharam mais códigos e rabiscos indecifráveis atrás da capa do livro. Entretanto, passados mais de 60 anos, ninguém sabe o que aquelas palavras e códigos significam, nem mesmo a identidade do morto.

— Kryptos:

Em 2010, Jim Sandborn deu uma pista, dizendo que uma sequência de letras significavam a palavra Berlim

A escultura “Kryptos” na sede da Central de Inteligência Americana (CIA), por Jim Sandborn. Nela estão quatro enigmas, dos quais três já foram decifrados, contudo um permanece um completo mistério.

Construído e prostrado como uma provocação do lado de fora da sede da CIA, o monumento Kryptos é um desafio para os mais brilhantes criptógrafos da Central de Inteligência e da própria NSA. Esculpido pelo artista Jim Sandborn, o monumento traz algumas mensagens criptografadas divididas em quatro seções.

Três desses enigmas já foram desvendados na década de 1990, porém existe um até hoje indecifrável. Sandborn alegou que a escultura como um todo traz um enigma dentro de um enigma.

Um dos códigos decifrados falava sobre a abertura do túmulo de Tutankhamun em 26 de novembro de 1922. Outro fornecia as coordenadas 38°57’6.5″N77°8’44 “W, ponto próximo ao próprio monumento. Em 2010, Sandborn revelou apenas que as letras NYPVTT do quarto e último enigma significavam “Berlim”. Porém até hoje o último desafio segue indecifrado.

— O enigma Beale e o “X” do tesouro perdido:

Apenas uma mensagem das três existentes foi decifrada. Aquela que traz o local exato do tesouro de mais de 20 milhões em prata e ouro permanece indecifrada

O folheto contando a história incrível dos enigmas de Beale e o tesouro perdido.

Considerado um dos maiores enigmas criptográficos de todos os tempos, as cifras Beale são uma série de três mensagens deixadas por Thomas J. Beale em 1822 a um amigo. Pedindo que guardasse as mensagens cifradas, Thomas deu as instruções para que o amigo tentasse decifrá-las caso ele não voltasse de viagem.

Beale prometia que nos códigos havia as coordenadas exatas de 20 milhões em prata e ouro que ele havia escondido em Montvale, no Condado de Bedford, na Virgínia. Na primeira mensagem havia a localização do tesouro, na segunda — a única decifrada até hoje — a descrição mesmo e a terceira e última mensagem cifrada trazia os nomes dos companheiros de Beale e as porções que cada um tinha direito sobre os 20 milhões.

Apesar da história envolvente do tesouro escondido, pouca coisa se sabe sobre sua veracidade. As únicas informações que existem a respeito são aquelas contidas em um folheto de 1885 chamado The Beale Papers, onde é contado sobre os enigmas, bem como a transcrição dos mesmos. Segundo o folheto, de autor desconhecido, Thomas Jefferson Beale e alguns companheiros acumularam fortuna em suas viagens ao México e de volta à Virgínia esconderam a fortuna.

Então em 1822, prestes a sair em mais uma viagem, Beale colocou alguns documentos cifrados em uma caixa de ferro lacrada e entregou a um amigo de confiança chamado Robert Morriss. Em uma carta datada de 09 de maio de 1822, Thomas explicava o que continha na caixa e dava instruções para que Morriss a guardasse e somente a abrisse nos próximos dez anos, caso ele não retornasse de viagem. Finalmente em 1845, Morriss rompeu o cadeado e tentou decifrar os documentos, em vão. Duas décadas depois de tentar decifrar as mensagens, Robert entregou a caixa a um amigo de identidade desconhecida que então escreveu o folheto contando a história do tesouro perdido.

Como se a história também já não fosse incrível o suficiente, eis que mais uma curiosidade surge: o amigo de Robert, escritor do folheto, foi quem conseguiu decifrar a segunda mensagem. Para tanto ele utilizou nada mais, nada menos do que a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América. No texto decifrado estava escrito:

Eu depositei no condado de Bedford, a seis quilômetros de Budford, em uma escavação ou cripta, cerca de 1,80 m abaixo da superfície do solo, o seguinte conteúdo, tudo pertencendo às partes cujos nomes serão dados no texto número 3. O primeiro depósito consiste em mil e quatorze libras de ouro e três mil, oitocentas e doze libras de prata, depositadas em novembro de 1819. O segundo depósito foi feito em dezembro de 1821 e consiste em mil novecentas e sete libras de ouro e mil duzentas e oitenta e oito libras de prata. Também há joias obtidas em St. Louis em troca da prata, para reduzir o peso do material transportado, valendo 13 mil dólares. Tudo está seguramente acomodado em potes de ferro com tampas de ferro. A cripta encontra-se forrada com pedras, os potes permanecem sob pedras e mais pedras. O texto número 1 indica a exata localização da cripta, desse modo não haverá dificuldade em encontrá-la.

Como e o porquê ele usou a declaração ainda é desconhecido, assim como os outros dois enigmas indecifráveis. Em 1934, entretanto, o Doutor Clarence Williams, pesquisador da Biblioteca do Congresso alegou que a história parecia um engodo, pois ela estava cheia de inconsistências e se baseava basicamente em rumores e não possuía nada de consistente. Outros grandes criptógrafos também alegaram que provavelmente as outras duas mensagens não traziam nenhum enigma a ser decifrado em inglês.

Contudo, as opiniões são divergentes, pois alguns criptoanalistas alegaram que os textos e números seguiam um padrão claro, mostrando que a probabilidade deles conterem uma mensagem cifrada era alta. O fato é que talvez nunca venhamos a descobrir a verdade, a não ser que alguém, um dia, esbarre sem querer em uma fortuna de mais de 20 milhões em prata e ouro.

— O disco de Phaistos:

Encontrado em Creta e remontando à Idade do Bronze, o disco de Phaistos é único no mundo e seu significado é um completo mistério

Uma das faces do disco de Phaistos. Foto do Museu de Arqueologia de Heraklion.

Pouco realmente se sabe sobre o disco de Phaistos. A única coisa concreta é que ele é feito de barro e remonta a alguma data a.C., possivelmente no final da Idade de Bronze. Porém sua origem bem como sua finalidade são um mistério.

Encontrado em Creta em 1908 pelo arqueólogo italiano Luigi Pernier, o disco possui cerca de 45 símbolos em ambos os lados, no sentido horário. Alguns são visivelmente pessoas e animais, porém outros parecem uma língua antiga e desconhecida.

O que mais intriga os arqueólogos e especialistas é o fato de não existir qualquer outro objeto que traga o mesmo padrão de escrita, sendo o disco de Phaistos único no mundo e um verdadeiro enigma da criptografia. Atualmente o objeto único está em exposição no Museu Aqueológico de Heraklion, na Grécia.

Referências:
– “Forty Years On, The Body On The Beach Remains A Mystery” – The Age, 11 de maio de 1987
– Markoff, John. “CIA’s Artistic Enigma Reveals All but Final Clues“. The New York Times, 1999.
– “Cracking the Code of a CIA Sculpture“. Washington Post, 1999.
– Stein, David D.. “The Puzzle at CIA Headquarters: Cracking the Courtyard Crypto” (pdf). Studies in Intelligence, 1999.
– “The Beale Treasure Ciphers“. The Guardian. 1999
– “The Mysterious Treasure of Thomas Beale”. BBC. org.
– Gillogly, James. ” The Beale Cipher: A Dissenting Opinion“. Cryptologia, 1980.
– C.Michael Hogan. “Phaistos fieldnotes“. The Modern Antiquarian, 2007
– Eisenberg, Jerome M.. “Phaistos Disk: A 100-Year-Old Hoax? Addenda, Corrigenda, and Comments”. Texas University, 2008.
– Duhoux, Yves. “How not to decipher the Phaistos Disc“. American Journal of Archaeology, Vol. 104, No. 3 (2000), p. 597–600.