A evolução dos cães

Atualidades, Curiosidades, Imagens Históricas, Século XIX, Século XX A evolução dos cães
* Por Talita Lopes Cavalcante


Bull Terrier

As visíveis mudanças sofridas pelo Bull Terrier ao longo dos anos.

Normalmente associado a uma suposta superioridade qualitativa dos animais que o detém, o Pedigree muitas vezes mascarou questionáveis intervenções sobre a saúde das raças dos cães que o ostentam.

O estudo do passado de algumas raças permitiu não somente a constatação de significativas diferenças nas mesmas ao longo do tempo, como igualmente a percepção de que muitas de suas mudanças mais atenderam a questões estéticas do que propriamente à preocupação com a saúde dos animais. Comumente registradas de acordo com os padrões estabelecidos pelo United Kennel Club, muitas das raças criadas pelo homem ostentam um histórico de gradativa debilidade física em virtude das práticas a que foram submetidas por seus criadores.

Dentre estas práticas, se encontram o uso da cruza entre animais geneticamente semelhantes para fins utilitários de seleção a partir de aspectos como o porte e a elegância dos cães. Acentuando ou atenuando determinadas características importantes ao organismo dos animais, o uso indiscriminado destas práticas influenciou diretamente no surgimento ou na maior frequência de determinadas debilidades de saúde encontradas em algumas das mais conhecidas raças de cães: a diminuição do “stop” canino (curva do nariz, entre os olhos), por exemplo, teve como decorrência direta o aparecimento de dificuldades de respiração e controle da temperatura corporal entre as raças submetidas a este processo.

As imagens a seguir mostram como em 100 anos algumas raças foram modificadas e quais sofreram com problemas advindos dessas mudanças.

Basset Hound no século XX

O Basset Hound no início do século XX.

Com mais pele sobrando e uma estatura menor, o Basset contemporâneo comumente sofre com problemas nas articulações e nas vértebras. Por meio de processos de seleção adotados por seus criadores ao longo do tempo, suas orelhas tiveram aumento de tamanho, acarretando seu arrastar pelo chão e a frequência de infecções de ouvido e mau odor. O excesso de pele na região de seus olhos, além de dificultar a visão, também propiciou o maior desenvolvimento de doenças na pálpebra e no globo ocular.

Basset Hound atualmente

O Basset Hound hoje.

O Bull Terrier talvez seja um dos que mais sofreu mudanças com o passar do tempo. Seu antigo porte atlético foi sendo gradativamente substituído pelo privilégio a animais com cabeça comprida, quase sem “stop”, além de um abdômen maior e proeminente: nos dias atuais, os cães desta raça sofrem de doenças como dentes supranumerários, hiperatividade e problemas de pele.

Bull Terrier no século XIX

O Bull Terrier no passado é uma das raças que mais se nota a diferença física para seu exemplar hoje.

Bull Terrier atualmente

O Bull Terrier atual.

Outro que sofreu mudanças consideráveis em virtude das técnicas de aprimoramento de raça, o Bull Dog contemporâneo exemplifica de maneira única os problemas oriundos destas práticas: seu focinho extremamente curto implica em problemas respiratórios e de manutenção de sua temperatura corporal; suas proporções atuais, atarracado e muito baixo, dificultam seu acasalamento; por fim, a realização de pesquisas recentes indicou uma severa queda em sua expectativa de vida nos dias atuais, centrada em cerca de seis anos.

Bull Dog século XIX

O Bull Dog de antigamente não sofria de vários problemas de saúde que a raça sofre atualmente.

Bull Dog atualmente

Hoje o Bull Dog tem uma qualidade e expectativa de vida muito reduzida devido as mudanças que a raça sofreu em prol de uma estética artificial.

O Boxer, apesar de não ter sofrido tantas mudanças conjuntamente, também sofre com problemas no controle da temperatura corporal devido o focinho mais curto; também tem sido maior o aparecimento de casos de câncer entre os cães desta raça.

Boxer do século XIX

Boxer do século XIX

Boxer atualmente

Boxer atualmente.

O Pastor Alemão dos dias atuais tende a possuir uma inclinação maior na parte traseira de seu corpo, bem como um aumento significativo de seu peso com o passar do tempo: tais modificações acarretaram no aparecimento de problemas relacionados às juntas e ossos dos animais da raça.

Pastor Alemão antigamente

Pastor Alemão do século XIX

Pastor Alemão na atualidade

Pastor Alemão atualmente

As pernas mais curtas e a desproporcionalidade do pescoço dos Dachshund são decorrência direta da intervenção humana: seus troncos são atualmente mais longos, seus peitorais mais proeminentes e suas patas mais curtas. Tais mudanças ocasionaram o aumento de doenças nos ossos e vértebras, tornando-se comum a paralisia corporal como consequência; também se tornaram mais propensos a doenças como Acondroplasia (má formação nas cartilagens).

Dachshund antigamente

O Dachshund de antigamente não possuía um peito tão proeminente e nem o arrastava no chão.

Dachshund atualmente

Devido às intensas modificações pelas quais passou, o Dachshund atual possui uma série de particularidades, muitas das quais não são saudáveis.

O Dobermann também foi outra raça modificada nesses 100 anos: com uma proporção bem menos suave, agora o novo padrão mostra um cão cujo peito é maior e a traseira é ligeiramente menor, acarretando problemas de saúde similares aos dos Pastores Alemães.

Dobermann antigamente

Dobermann do século XIX

Dobermann atualmente

O Dobermann atual sofre de uma série de doenças similares às do Pastor Alemão.

Por fim, o São Bernardo atual apresenta uma maior estatura e peso, além de excesso de pelo, o que tem ocasionado a incidência de debilidades como a paralisia, câncer, hemofilia e problemas oculares.

São Bernardo do século XIX

O São Bernardo de antigamente possuía o rosto menos enrugado do que o exemplar da raça atualmente.

São Bernardo atualmente

O São Bernardo atual sofre de doenças oculares.

O uso indiscriminado de tais práticas por parte de alguns criadores de raça atualmente se tornou uma das grandes preocupações daqueles interessados no bem-estar dos animais. Segundo Caroline Kisko, secretária do Kennel Club,

A criação de cães é uma indústria relativamente não regulamentada e para cada criador responsável por produzir animais saudáveis, há aquele que promove a criação de cães por dinheiro e para alcançar um determinado padrão e gosto pessoal, não tendo necessidade de respeitar as regras sanitárias nas Normas da raça ou a qualquer outro critério.”

Ela ainda complementa,

Os compradores do filhote devem sempre ver o filhote com sua mãe e evitar quaisquer que venham de pais com características excessivamente exageradas, que podem incluir enrugamento excessivo, focinhos excessivamente curtos ou excesso de peso.”

As fotos antigas foram retiradas do livro “Dogs of All Nations”, de W. E. Mason
As demais fotos, a equipe do Museu de Imagens buscou as informações para creditar as imagens. Entretanto nada foi encontrado. Caso saibam mais informação a respeito da autoria, entrem em contato.
Referências:
– ROONEY, Nicola & SARGAN, David. “Pedigree dog breeding in the UK: a major welfare concern?”. Scientific Report Comissioned by RSPCA.
– “The Price of a Pedigree: Dog breed standards and breed-related illness”. Relatório da Advocates for Animals, 2006.
– THORNHILL, Ted. “How a century of breeding ‘improvement’ has turned once-healthy dogs into deformed animals”. Daily Mail, 2013.