Fotografias Post Mortem: prática comum na Era Vitoriana

Curiosidades, Século XIX Fotografias Post Mortem: prática comum na Era Vitoriana
* Por Talita Lopes Cavalcante


Registro do século XIX de autor desconhecido.

Registro de um estúdio fotográfico realizando uma foto de uma pessoa morta, século XIX.

Na Era Vitoriana¹, as fotografias post mortem — fotos de pessoas mortas — ficaram muito famosas após a própria realeza inglesa se utilizar dela para o registro de parentes que haviam morrido.

O primeiro registro fotográfico data da primeira metade do século XIX, em 1826. Ao longo dos anos de 1800, o serviço fotográfico foi muito caro e o processo era lento, já que as câmeras demoravam muito tempo para capturar a imagem, portanto, sendo considerado luxo.

Contudo, em 1839 surgiu uma técnica conhecida como daguerreótipo², criada por Louis Daguerre, que socializou em partes a produção de fotos, através de uma técnica mais barata e mais rápida. Entretanto, ainda sim era cara o suficiente para impedir que as pessoas pudessem tirar várias fotografias de si e da família ao longo dos anos, restando apenas a estratégia de guardar dinheiro para que, pelo menos, fosse possível pagar por uma foto de seu familiar após a morte.

Fotografia da Era Vitoriana

A criança sentada na poltrona está morta.

Apesar de tudo isso, as fotografias post mortem surgiram, primeiramente, para que os pais pudessem guardar imagens de seus filhos, quando estes morriam. Exatamente como fora dito anteriormente, o processo de captura da imagem era demasiadamente lento e fotografar uma criança, que muitas vezes ficava impaciente, era um trabalho em dobro.

Tudo isso fez com que as fotos tiradas em vida das crianças da família fossem um serviço de luxo apenas ao alcance dos mais afortunados. A solução para o problema, juntamente com o fato de na época a mortalidade infantil ser alta, foi fotografar as crianças que haviam morrido, surgindo as post mortem. Dessa forma, os familiares ainda poderiam ter o registro dos filhos.

Exatamente pelos motivos apresentados para a prática que as fotografias post mortem não devem ser vistas com espanto, pois elas, além de serem arte, eram, talvez, o único registro de um ente querido. Elas carregam, portanto, sentimentos. O serviço para se registrar uma dessas fotos variava. Para que se assemelhassem aos retratos que eram tirados em vida, por exemplo, o fotógrafo realizava um verdadeiro trabalho artístico. Havia toda uma produção para que a pessoa que se queria registrar saísse o mais natural.

Assim, recursos de iluminação, maquiagens (pintura dos olhos), produção de cenário e vestimentas eram pensados e planejados de forma profissional e com esmero nos mínimos detalhes, de forma a garantir um cenário que representasse o cotidiano. Algumas vezes eram necessários recursos extras de produção, como estruturas em madeiras ou ferro para sustentarem os corpos das pessoas mortas. Por outro lado, existiam aqueles que não se importavam que seus parentes mortos fossem fotografados dentro de caixões, sem grandes produções artísticas, ainda que houvesse a preocupação em se produzir um ambiente tranquilo para a foto.

Registro de um velório com manipulação fotográfica

Duas técnicas juntas: post mortem e uma manipulação fotográfica para parecer que havia um espírito na imagem.

Por todos esses fatores, novamente, as fotografias post mortem podem ser consideradas registros de arte e uma homenagem àqueles que se foram. Com o tempo, as fotos começaram a ficar mais acessíveis às pessoas com a evolução das técnicas fotográficas e as post mortem foram abandonadas aos poucos, restando apenas aquelas tiradas de crianças muito pequenas.

Por fim, a técnica ficou marcada como uma das características e curiosidades da Era Vitoriana. Entretanto, as post mortem ganharam popularidade apenas após sua menção na cultura popular atual, por exemplo no filme “Os Outros”. A partir daí, passaram a ser conhecidas pelo grande público, todavia muita gente ainda encará-las como imagens sinistras, de mau gosto e como um tabu na sociedade atual.Em contrapartida, muitos fotógrafos contemporâneos fazem desse tipo de foto arte.

Família tirando uma última foto de um membro.

Fotos de caixões e enterros também eram comuns no século XIX.

Alguns exemplos que podem ser citados são Andres Serranos e Joel-Peter Witkin. O primeiro registra corpos de pessoas que faleceram de forma violenta, já o segundo mutila corpos de indigentes e os coloca nas posições desejadas para a produção de uma fotografia artística. Tabu ou não, o fato é que as fotografias post mortem eram vista com naturalidade no século XIX e eram um pedaço e a representação da cultura e organização social da época.

Fotografia do século XIX

Fotos de crianças mortas eram muito comuns.

Foto tirada no século XIX

O bebê da poltrona está morto e, possivelmente esse foi o único registro dos irmãos juntos.

Menina morta em foto do século XIX

Um registro artístico, em posições elaboradas e com um cenário por trás, eram importantes para que a família tivesse uma boa recordação do parente morto.

Cachorro morto fotografado na Era Vitoriana

Até os animais muito queridos ganhavam esse tipo de fotografia quando a família era mais abastada. Foto de John Burton & Sons.

Mãe e criança em fotografia pós morte.

Para guardar um último retrato dos filhos, muitas vezes os pais saiam junto nas fotografias.

Bebê morto em foto do século XIX

Detalhe do retrato de uma criança morta.

Menina morta em foto post mortem

Velório de uma criança.

¹ A Era Vitoriana compreendeu o reinado da Rainha Vitória, que vai de 20 de junho de 1837 e finda em 22 de janeiro de 1901 com sua morte.
² A técnica daguerreótipo foi o primeiro processo fotográfico de sucesso em sentido comercial. Foi inventado por Louis-Jacques-Mandé Daguerre e condiz com um processo fotográfico sem a produção de uma imagem negativa, mas apenas um positivo em baixo relevo em tons de cinza.