Krampus: o anti-noel

Curiosidades, Idade Média, Idade Moderna, Século XIX, Século XX Krampus: o anti-noel
* Por Talita Lopes Cavalcante


Fantasiados de Krampus

A famosa foto com Krampus, supostamente retirada da Deep Web.

A imagem acima surgiu na internet há alguns anos sendo dita como proveniente da Deep Web — a parte da internet cujos sites não são indexados pelos buscadores convencionais — e poucos conhecem sua história real. Muitas pessoas acreditam que a foto tenha sido encontrada em um fórum de pedofilia, outros afirmavam ser a imagem de uma seita ou algo relacionado. O fato é que, na verdade, a foto é proveniente do álbum da banda de black metal Hell Horse e representa uma antiga lenda alemã da criatura bestial Krampus, o anti-noel.

Krampus, o anti-noel

O natal, antes de ser utilizado pela Igreja Católica como uma data cristã, era uma tradição pagã e, como tal, encontrava-se também dentro das tradições germânicas. Nesse sentido, Krampus é tido como uma criatura demoníaca do folclore alemão que, segundo a lenda, apareceria na época do natal pré-cristão para punir as crianças desobedientes. Ao contrário de São Nicolau, que presenteava as crianças boas e obedientes, Krampus era um anti-noel e capturava as crianças más, levando-as para longe de suas casas. Na tradição germânica atual, o demônio aparece com a enorme língua para fora, carregando correntes e um ramo de graveto nas mãos. Na foto da banda HellHorse, é possível notar que uma das pessoas fantasiadas carrega os mesmos objetos, assim como a representação lendária de Krampus.

É importante salientar que em algumas versões do folclore, a criatura bestial tem ajuda de outros demônios na captura de crianças desobedientes e, dessa forma, a fotografia que acompanha o disco da banda supracitada faz jus à lenda do anti-noel. Ainda que tenha raízes no folclore nórdico, Krampus aparece em diversos outros países e regiões da Europa como na Áustria, Hungria, Eslovênia, Eslováquia, Croácia e outros, sempre na semana do natal.

Mesmo após a cristianização de algumas crenças consideradas pagãs pela Igreja Católica, o Krampus continuou fazendo parte das lendas germânicas e por volta do século XVII foi incorporado nas celebrações cristãs de parte da Europa, ao lado de S. Nicolau. Ainda assim, a figura demoníaca foi questionada a respeito de ser ou não apropriada para as crianças. Por várias vezes, durante o século XX, Krampus foi abandonado das tradições e novamente incorporado, até que no final do século se consolidou nas celebrações populares e permanece atualmente.

São Nicolau e Krampus

St. Nicolau e o demônio Krampus em uma casa na Áustria. Desenho de um jornal de 1896.

Representações do anti-noel

Os castigos da criatura bestial Krampus

O Natal e os festivais pagãos

Por muito tempo as outras crenças relutaram em abandonar suas práticas diante do Cristianismo. Assim, os missionários e padres cristãos aceitaram, visando converter os seguidores de outros credos, incorporar alguns festivais considerados pagãos. Apenas no século IV, por exemplo, que a data 25 de dezembro foi fixada pela Igreja como aniversário de Jesus e chamada de Natal, que tem suas raízes em alguns ritos, como a Festa do Solstício de Inverno, o Festival Escandinavo do Yule, de onde origina-se a lenda de Krampus; e as Saturnais Romanas.

Das Saturnais Romanas, por exemplo, a Igreja Católica sancionou parte do ritual no que diz respeito à troca de presentes e ao grande banquete dado na noite de 25 de dezembro. Era prática romana, durante o mês de dezembro (segundo calendário atual), os cidadãos romanos trocarem de papel com seus escravos que presidiam um grande banquete, com o amo os servindo-os com todas as honras.

O Cristianismo não sancionou completamente tal prática, pois após o banquete, os escravos eram conduzidos ao anfiteatro e executados. Já a árvore de Natal e as velas pertencem à tradição escandinava, em que ambos eram símbolos da luz e do fogo que aliviava os homens do frio e das trevas do inverno nórdico. A figura do papai Noel também é uma mistura de um Deus escandinavo, o Lord da Confusão, com trajes vermelhos, e de S. Nicolau, o santo patrono das crianças.

Referências:
Goat-Headed Christmas Cheer: Run, Kris Kringle, Krampus Is Coming!”. Der Spiegel, 2011.
ZAWADIL, Alexandra.”Santa’s evil sidekick? Who knew?“. Reuters. 2006.