O leilão de escravos vindos da África

Brasil, Curiosidades, Idade Moderna, Século XIX, Século XVII, Século XVIII O leilão de escravos vindos da África
* Por Talita Lopes Cavalcante



Fotos de escravos ainda em solo africano, ca. 1870. Foto de autor desconhecido.

Antes dos navios negreiros chegarem à América, as pessoas transportadas ali, cativas, já haviam perdido a dignidade enquanto ser humano e tinham seu destino possivelmente para sempre selado: a escravidão. Porém, era no leilão de escravos que a realidade futura de sofrimentos começava a se materializar.

Sempre que um navio negreiro estava prestes a chegar com um novo “carregamento”, os leilões eram anunciados à base de clientes — senhores de escravos — que poderia se interessar em adquirir mais um cativo. Assim que a embarcação atracava, os prisioneiros eram enfileirados e passavam por uma chamada para reconhecimento, em seguida eram enviados para celas onde tomariam banho e se arrumariam para os leilões.

Nessas celas pré-leilões, os recém chegados eram obrigados a passar óleo no corpo ou alcatrão para que ganhassem um aspecto mais saudável, visto que após a longa viagem muitos estavam debilitados. Durante esse período ainda podiam ser marcados a ferro incandescente para identifica-los como escravos. Era a marca final da perda total da humanidade.

Cela pré leilão, onde os escravos se banhavam, passavam óleo no corpo e eram marcados a ferro antes de irem para o leilão. Foto: “Slave pen, Alexandria, Va”. Library of Congress. ID: LC-DIG-cwpb-01472.

Nas casas de leilão, após a triagem nas celas, os escravos eram expostos para que famílias abastadas escolhessem um membro com as características físicas consideradas adequadas à época a um trabalhador escravizado. Aqueles que não se encaixassem e não fossem escolhidos por ninguém podiam ser assassinados. Havia dois tipos de leilões; aqueles que vendiam pelo maior lance e o “pegue e vá”.

Anúncios classificados – “Leilão de móveis e escravo, venda de armazém, procura-se criada”. Publicado no jornal santista “O Mercantil”, ano I, edição 7, de sábado, 20 de julho de 1850, página 4. Acervo Memória Biblioteca Nacional Digital.

No primeiro, os escravos eram expostos em plataformas elevadas para que os compradores avaliassem e dessem o lance à “mercadoria” mais interessante. Caso o cliente desejasse, ele poderia subir na plataforma e inspecionar pessoalmente o indivíduo ali exposto. Esse era um momento muito constrangedor, especialmente para as mulheres que seriam inspecionadas.

Era comum nessas avaliações as mulheres serem apalpadas nos seios e em suas genitais; mormente sem entender a língua, nem o que estava acontecendo. Os homens eram forçados a abrir a boca para avaliação dos dentes, além de avaliações íntimas. Após a inspeção, o comprador decidia o preço que estava disposto a pagar. Caso o escravo fosse novo, o preço costumava ser alto, contudo, se fosse uma criança muito pequena ou idoso o preço abaixava. Os lances eram iniciados e a oferta de maior valor arrematava.

Mercado de escravos nos Estados Unidos, Atlanta, 1864. Foto: “Auction & Negro Sales, Whitehall Street”. Barnard, George N.. Library of Congress. ID: LC-DIG-cwpb-03351.

O segundo tipo de leilão, o “pegue e vá”, possuía uma dinâmica muito particular. O cliente chegava ao mercado e pagava por um bilhete. Após todos os clientes terem pagado seus bilhetes, ao rufar dos tambores, a porta da senzala era aberta e todos os compradores entravam correndo. Quase como em uma caça, os compradores precisavam escolher logo os indivíduos de seu interesse antes que outro comprador o fizesse.

Apesar das descrições aqui contidas no texto, seria necessário um livro inteiro para conseguir relatar com um pouco mais de fidelidade como aconteciam as vendas de escravos e ainda assim, não seria possível traduzir em palavras o constrangimento e a violência pela qual as vítimas passavam. Cenas como essas se repetiram por séculos violando a dignidade de incontáveis indivíduos. Famílias foram separadas, corpos foram violados e o sofrimento dessas pessoas apenas se iniciava. Sofrimento esse que só é possível imaginar através de textos e fotos.

Referências:
“Auction & Negro Sales”, Whitehall Street. Library of Congress.
Arrival in the Americas. Liverpoll Museums.
– “A slave auction at Wilmington“. North Carolina Digital History.
– “Slave Auctions: Selections from 19th-century narratives of formerly enslaved African Americans“. National Humanities Center Resource Toolbox. Vol. I.


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