O Massacre de Srebrenica – um dos piores crimes de guerra da Europa

Genocídios, Guerras, Religião, Século XX O Massacre de Srebrenica – um dos piores crimes de guerra da Europa
* Por Italo Magno


Srebrenica

Garoto posa para foto nas ruas de Srebrenica com seu instrumento musical. Foto: Autor desconhecido.

O Massacre de Srebrenica é considerado por várias autoridades ocidentais e grupos de Direitos Humanos como o pior crime de guerra ocorrido na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, vez que o número de vítimas civis é superior 8.000 pessoas, a maioria de homens e meninos bósnios muçulmanos.

O Massacre

Na tarde de 10 de julho de 1995, soldados do exército sérvio da Bósnia iniciaram um ataque a Srebrenica, “cidade refúgio” criada pela Organização das Nações Unidas. Um oficial da ONU no local enviou uma mensagem desesperada a sede da ONU em Genebra:

“Urgente! Urgente! Urgente! O Exército Sérvio da Bósnia está entrando na cidade de Srebrenica. Será que alguém pode parar isso imediatamente e salvar essas pessoas? Milhares deles (soldados) estão se reunindo ao redor do hospital. Por favor, ajudem.”

Ninguém impediu. De forma fria e metódica, os homens muçulmanos foram levados aos milhares em caminhões para locais perto do rio Drina, onde foram alinhados em fileiras de quatro pessoas e fuzilados com apenas um único tiro. O Massacre de Srebrenica colocou em xeque na época a atuação nos Balcãs, tanto da ONU, quanto dos Estados Unidos e da OTAN (Aliança Militar do Tratado do Atlântico Norte). O genocídio foi realizado em um território sob proteção internacional, sendo considerado por muitas autoridades como o ponto baixo da política ocidental dos Balcãs.

O ataque sérvio a Srebrenica e a inércia das autoridades

O coronel Ton Karremans, comandante das forças de paz holandesas, alertou os altos funcionários das Nações Unidas, no mês anterior, que haviam sinais claros de que os sérvios estavam preparando um ataque. Durante semanas, o exército sérvio intensificou o cerco sobre a cidade. A força de paz já estava enfraquecida e havia sofrido saques em carregamentos de suprimentos e munições. No dia 6 de julho, os bósnios sérvios bombardearam uma aldeia ao sul de Srebrenica e reforçaram suas posições na região. No dia 7 de julho, os holandeses requisitaram um bombardeio com aviões da OTAN em posições de ataque sérvias, com o intuito de frear a ofensiva, contudo, a ONU rejeitou o pedido e considerou que tal ataque se tratava apenas de uma sondagem. Da mesma forma, não queria prejudicar os esforços de paz de Carl Bildt, negociador europeu que acabara de chegar na região.

No dia 9 de julho, o general Herve Gobillard enviou um fax ao general sérvio Ratko Mladić alertando sobre as graves consequências que o exército sérvio enfrentaria caso não cessasse o ataque contra a área de segurança. Foi totalmente ignorado. Na manhã seguinte, 10 de julho, um único tanque e cerca de 100 soldados de infantaria sérvios aproximaram-se do bloqueio holandês, sendo rechaçados sob uma chuva de metralhadores calibre .50. Novamente, as forças de paz holandeses deram um ultimato a Mladić e solicitaram um ataque aéreo ao alto comando, ambos sem êxito.

No dia 11 de julho, milhares de soldados de infantaria sérvios flanquearam os veículos blindados holandeses e entraram na cidade. O ataque aéreo enfim foi autorizado pela ONU, mas era tarde demais. Quatro aviões, dois holandeses e dois americanos, atacaram tanques sérvios, conseguindo danificar um deles. Prontamente, Mladić ameaçou matar 32 soldados de paz holandeses reféns caso o bombardeio aéreo continuasse, o que fez com que a ONU e a OTAN suspendessem imediatamente o contra-ataque.

Ao cair da noite, o general Mladić se reuniu com o coronel Karremans. De acordo com testemunhas oculares, o general ordenou a um de seus homens para que cortasse a garganta de um porco e declarou: “Isto é o que nós vamos fazer os muçulmanos”. O relatório oficial de Karremans não fez menção a ameaça do general sérvio, mas no mesmo é revelado que o coronel dizia não ser capaz de defender aquelas pessoas.

Cerca de 15.000 pessoas, a maioria homens, foram reunidos nos arredores de Srebrenica e forçados a marcharem durante a madrugada. Algumas mulheres foram sequestradas e estupradas por soldados sérvios. Na manhã de quarta-feira, dia 12, um comboio com cerca de 40 caminhões e ônibus chegou ao acampamento holandês de Potocari. Grupos de homens e mulheres foram separados. Os refugiados supostamente seriam levados para território sérvio para depois serem negociados por soldados sérvios capturados, segundo afirmava no local o próprio Mladić.

Ratko Mladic

No dia 12 de julho de 1995, Ratko Mladic toca em garoto muçulmano e garante às forças de paz da ONU que a população de Srebrenica estaria segura. Agência AP.

Christina Schmidt, uma enfermeira de origem alemã, liderou uma equipe dos Médicos Sem Fronteiras em Sbrenica. Ela enviou seu relato por rádio para o escritório de Belgrado de sua organização, que transmitiu para a imprensa mundial.

“Todo mundo deveria se sentir a violência nos rostos dos soldados do exército sérvio bósnio direcionando as pessoas como animais para os ônibus. Todo mundo que poderia ter impedido esse êxodo em massa deveria ser forçado a sentir o pânico e o desespero do povo.”

Dentre outras sandices que presenciou, Christina Schmidt também relatou o desespero de um pai que foi até ela com um bebê de um ano de idade, chorando. O pai seria levado pelo exército sérvio e não teria ninguém para cuidar de seu filho. Schmidt enxergou nos olhos daquele homem a expressão de alguém que nunca mais veria seu filho novamente.

Os refugiados que resolveram fugir a pé pelas florestas, eram caçados por soldados sérvios e tinham suas gargantas cortadas. Ninguém sabe exatamente quantas pessoas morreram no Massacre de Srebrenica. Analistas estimam um número de superior a 8.000 pessoas, principalmente de homens e meninos. Ratko Mladic foi preso em 26 de maio de 2011 em Lazarevo, região no norte da Sérvia.

Massacre de Srebrenica

Vala comum em Srebrenica, exumada em 2007. Foto: Adam Jones adamjones.freeservers.com

No dia 6 setembro de 2013, a Suprema Corte Holandesa declarou que a Holanda foi responsável pela morte de três homens muçulmanos bósnios, vez que os boinas azuis (forças de paz holandeses) arbitrariamente haviam ordenado a esses homens que deixassem o complexo das Nações Unidas durante o Massacre de Srebrenica. Segundo a advogada das vítimas, Liesbeth Zegveld, a decisão foi um avanço porque “estabelece que as forças de paz da ONU não podem operar em um vácuo legal, onde não há prestação de contas ou reparação para as vítimas”.

Referências
The New York Times. Massace in Bosnia; Srebrenica: The Days of Slaughter. Stephen Engelberg and Tim Weiner.
The New York Times. Dutch Peacekeepers Are Found Responsible for Deaths. Marlise Simons
Último Segundo. Holanda é declarada responsável por três mortes em massacre de Srebrenica.