A múmia que grita

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* Por Talita Lopes Cavalcante


Unknown Man E com sua expressão de dor congelada para a eternidade

Encontrada em 1886 em um sarcófago sem identificação, Unknown Man E, como foi chamado, estava com os pés e as mãos atados e fora envolto em pele de carneiro, algo considerado sujo e impuro pelos egípcios. Por anos se acreditou que o homem foi enterrado ainda vivo e todos esses fatores intrigaram cientistas e arqueólogos, pois para receber tais castigos, o homem desconhecido devia ter cometido um crime muito grave.

A agonia e dor permanecem no rosto de um corpo não embalsamado de mais de 3 mil anos. Essa múmia que foge dos padrões rígidos de embalsamamento dos egípcios antigos ficou conhecida como a múmia que grita e por muitos anos permaneceu o mistério por trás de tanta dor e desonra que a perseguiu mesmo após a morte.

De todos os achados arqueológicos encontrados no Egito, talvez os mais fascinantes sejam as múmias de seus antigos faraós, rainhas e sacerdotes. Como registros quase intactos e testemunhas mudas de uma sociedade, cultura e história que existiram há milhares de anos, as múmias também podem revelar as mortes violentas que sofreram.

Uma dessas testemunhas mudas é uma múmia que até há poucos anos não tinha sua identidade conhecida, sendo chamada de “Unknown man E” (Homem desconhecido E). Muitos arqueólogos, historiadores e cientistas acreditavam que ela pudesse estar relacionada a uma conspiração de assassinato do faraó Ramsés III, tendo recebido a sentença de morte e o maior castigo: morrer sem identificação. Esse tipo de castigo era particularmente gravoso e desonroso aos olhos da sociedade egípcia.

Unknown man E foi encontrada em junho de 1886, quando o arqueólogo Gaston Maspero seguia com seu trabalho em Deir el-Bahri — próximo ao Vale dos Reis — escavando algumas tumbas. Em algum momento, Gaston encontrou um sarcófago simples de madeira, sem qualquer tipo de identificação. Quando Maspero abriu o sarcófago, viu algo muito incomum e que o chocou. Lá, envolto em uma pele de carneiro – um objeto impuro para os antigos egípcios e impróprio religiosamente -, tomado por um cheiro putrefato, jazia um homem sem identificação alguma, com as mãos e pés atados e que parecia estar gritando.

O arqueólogo e sua equipe também observaram que o corpo não possuía nenhum tipo de incisão no abdômen que pudesse denotar um processo de embalsamamento. Para a equipe estava claro que aquela múmia não morrera de forma natural, nem tivera um enterro comum. Mas restava a dúvida: por que?

Em um primeiro momento, Gaston Maspero acreditou que o homem pudesse ter sido assassinado por envenenamento. A forma como os músculos estavam contraídos e a dor expressa no rosto o faziam acreditar nessa hipótese. Daniel Fouquet, o primeiro médico a examinar o corpo, concluiu de forma similar a Maspero. Contudo, um químico chamado Mathey discordou da versão inicial e disse que era provável que o homem morrera de asfixia e provavelmente fora enterrado ainda vivo como castigo.

Um quarto de século depois do achado muitas questões ainda permaneciam. A identidade do homem ainda era desconhecida e o mais intrigante: como uma múmia sem identificação, que não passou pelo processo de embalsamamento, enterrada de forma impura e indigna em um sarcófago simples, poderia jazer no Vale dos Reis, ao lado dos maiores faraós? O que aquele homem fizera de tão grave para merecer tamanho castigo?

Desde sua descoberta, muitos especulam a identidade do Unknown man E. O próprio Gaston Maspero forneceu sua teoria, em que o homem sem identificação era, na verdade, o príncipe Pentewere, filho de Ramsés III, envolvido diretamente em uma conspiração contra seu pai. Entretanto, essa teoria foi fornecida no século XIX, quando ainda não existiam testes de identificação de parentesco por meio do DNA e durante muitos anos o mistério ficou esquecido.

Finalmente em 2012, após testes forenses, cientistas revelaram que a teoria de Gaston Maspero estava correta. Unknown man E tinha traços genéticos que apontavam sua identidade para o Príncipe Pentewere. No final do reinado do faraó, Pentewere se envolvera com o assassinato de seu pai durante uma disputa sangrenta pela sucessão no trono, segundo constam documentos da época.

Ramsés III, que governara entre os anos 1188-1155 aC, era descrito como o “Grande Deus” e como um grande líder militar. Aos 65 anos, quando estava prestes a declarar quem seria seu sucessor, foi assassinado com um corte profundo na garganta. O papiro da Justiça de Turim é um dos únicos capaz de revelar a conspiração por traz da morte do faraó.

Segundo o documento, a segunda esposa de Ramsés III, Tiye, juntamente com seu filho, o Príncipe Pentewere, alguns criados, um sacerdote e um feiticeiro tramaram e cometeram o crime. Tiye e Pentewere tinham motivos suficientes para querer a morte de Ramsés III, visto que o faraó provavelmente nomearia como regente seu filho mais velho, fruto de seu casamento com a primeira esposa, Iset Ta-Hemdjert.

Porém, mais do que isso, Ramsés cometeu erros graves que deixaram brechas na sucessão. O faraó não nomeou os demais filhos como príncipes, nem nomeou uma de suas duas esposas, Iset Ta-Hemdjert e Tiye, como Grande Esposa Real. Apesar da falta de um nome oficial para a regência, naturalmente o filho mais velho tinha direito a assumir o trono. Sendo assim, Tiye e Pentewere tramaram o assassinato do faraó — um crime gravíssimo — e, com a ajuda de conspiradores, pretendiam afastar a primeira esposa e o filho mais velho do poder.

Após a descoberta da autoria do crime, todos foram condenados a uma morte impura e desonrosa. O corpo de Tiye jamais foi encontrado. Finalmente o mistério de 3 mil anos havia sido solucionado e a identidade do homem desconhecido pôde ser revelada.

Foto: The Royal Mummies, G. Elliot Smith, 1912. Music du Caire/Ashmolean Museum, Oxford.
Referências:
– “Egypt: Land of the Pharaohs”. Time Life Books Inc. & Ediciones Folio, 2007.
– BRIER, Bob. “The Mystery of Unknown Man E“. Archaeology, 2006.
– “Scientists solve 3000-year-old Ramses III whodunnit“. The Australian, 2012.
– Françoise Dunand, Roger Lichtenberg. “Mummies and Death in Egypt“. Cornell University Press, 2006.