As origens históricas do Halloween

Curiosidades, Século XIX, Século XVIII, Século XX As origens históricas do Halloween
* Por Talita Lopes Cavalcante


Pessoas fantasiadas para o Halloween de 1914

Festa de Halloween em 1914.

O Halloween, data comemorativa celebrada no dia 31 de outubro, talvez não possua uma única origem, mas certamente foi consubstanciado por várias fontes ao longo da História. Dentre estas, se encontra a tradição religiosa celta do Samhain.

Segundo Nicholas Rogers, a palavra Halloween teria sua origem etimológica no Cristianismo, e seria o resultado da conjunção da expressão “All Hallow Even”, que denominava a noite anterior a duas datas comemorativas no calendário cristão: o dia de Todos os Santos, comemorado em 01 de novembro, e o dia de Finados (“All Souls’ Day”), comemorado no dia 02 de novembro.

Estas duas datas tinham e ainda têm especial significância para o calendário cristão, dado que compreendem um período de orações das comunidades cristãs em favor de todos os mártires, santos e almas que estivessem no purgatório. Ainda que ligado ao cristianismo, o Halloween é mais frequentemente associado ao festival religioso celta conhecido como Samhain ou Samuin, que procurava representar simbolicamente o fim do verão. Comemorado principalmente entre os celtas da Irlanda e na Escócia, este festival se relacionaria aos ciclos solares e representaria tanto a morte do sol quanto o início de um período de escuridão na Terra.

Nesse sentido, seu simbolismo se associa à percepção religiosa deste povo acerca dos ciclos de vida, sendo parte integrante do que acreditavam ser todo um processo de nascimento, plenitude, morte e renascimento das estações de colheitas. Por estar relacionado com o período de “escuridão” (inverno) pelo qual a Terra passaria, o ritual do Samhain procurava se ligar ao sobrenatural, dado que os celtas acreditavam que o período do ciclo de estações iniciado pelo festival seria marcado tanto pela dominação das forças das trevas quanto pela abertura de um portal entre o mundo dos mortos e dos vivos. A tradição de se acenderem fogueiras, por exemplo, no Halloween pode estar associada à ideia de que o fogo simbolizaria o sol, sendo, portanto, uma forma de pedir o regresso do astro para afastar a escuridão que atingia a Terra na estação que se iniciava após o festival.

Na tradição cristã, conforme colocado anteriormente, o Halloween seria originário das celebrações de vésperas de duas importantes datas do calendário desta religião. Ainda que existente durante os séculos anteriores, o uso da expressão Halloween para denominar esta celebração somente veio a se popularizar no século XVIII. No que tange às origens desta celebração na liturgia cristã, é importante notar que a mesma talvez detenha uma origem diretamente relacionada ao processo de cristianização dos povos celtas.

Neste caso, os historiadores do tema procuram se embasar no fato de que até o papado de Gregório IV, o Dia de Todos os Santos era celebrado em 13 de maio, data que veio a ser transferida para primeiro de novembro no ano de 835, por iniciativa deste Papa. Para estes estudiosos, a mudança de data desta celebração seria uma tentativa de unificar e cristianizar as comemorações pagãs, procurando converter o festival do Samhain em uma vigília cristã ao Dia de Todos os Santos e Finados.

Prática do souling

Ilustração de “St. Nicholas: An Illustrated Magazine for Young Folks”, dezembro de 1882, p. 93, mostrando a prática do “souling” ou bolinho das almas, que deu origem ao “doce ou travessuras”.

É também de origem cristã a prática do “doces ou travessuras”. Durante a vigília realizada no dia 31 de outubro, dois dias antes de Finados, diante da conclamação para os cristãos rezarem pelas almas que estavam no purgatório, teria se tornado comum que nestas comunidades as crianças pobres fossem bater de porta em porta oferecendo o “serviço” de orar em troca de bolos que ficaram conhecidos como “bolinho das almas”.

Já utilização de abóboras é reivindicada como tendo origem no mito irlandês da alma rejeitada pelo Diabo. Segundo esta lenda, Jack Miserável, um beberrão, consegue prender o Diabo e em troca de soltá-lo faz um trato com a entidade. Jack faz o Diabo prometer que sua alma nunca seria reivindicada. Após uma vida inteira de baderna e bebidas, Jack morre, mas não é aceito no Céu e, mantendo a promessa, o Diabo também não o aceita no Inferno.

Com pena de Jack, a entidade do mal lhe dá uma chama diretamente do Inferno que é colocada pela alma do bêbado em um nabo oco. Desde então, segundo a lenda irlandesa, nas noites de Halloween, Jack vaga pela terra segurando o nabo com a chama presenteada pelo Diabo em busca de um lugar para descansar. Seria dessa lenda a origem das “jack-o’-lanterns”, ou seja, das abóboras iluminadas, que só vieram a se tornar comuns nos Estados Unidos após imigrantes escoceses e irlandeses levarem esta prática para a Nova Inglaterra.

Um tradicional nabo irlandês

Um nabo tradicional irlandês do início do século 20. Foto: Museu de Country Life, na Irlanda.

Como as abóboras eram mais abundantes em solo americano, estas vieram a substituir o nabo. Independente das diferentes visões e interpretações de folcloristas e historiadores, todos aceitam que o Halloween nasceu de diversas tradições, crenças e costumes e, com o tempo, foi sofrendo alterações até chegar à festa que continua a ser celebrada atualmente nos Estados Unidos e em países europeus de origem saxônica.

Referências:
– ROGERS, Nicholas. “Halloween: Fron Pagan Ritual to Party Night”. Oxford University Press. New York, 2002.
– BBC. Org. “All Hallows’ Eve”.
– “Ancient Origens of Halloween”. History.
– “The Legend of ‘Stingy Jack’”. History.