Saladino, o maior herói do mundo muçulmano

Biografias, Guerras, Guerras Antigas, Idade Média, Personalidades Saladino, o maior herói do mundo muçulmano
* Por Eudes Bezerra



“Saladino, o Vitorioso”. Salah al-Din Yusuf ibn Aiub, mais conhecido no Ocidente como Saladino, tradicionalmente, é o maior herói do mundo muçulmano. Imagem: Gustave Doré.

“Saladino, o Vitorioso”. Salah al-Din Yusuf ibn Aiub, mais conhecido no Ocidente como Saladino, tradicionalmente, é o maior herói do mundo muçulmano. Imagem: Gustave Doré.

Carismático, feroz em combate e generoso na vitória, Saladino, o maior herói do mundo muçulmano, provou que mesmo adversários podem se respeitar. Ferrenho defensor do Islã, hábil administrador, humilde e avesso à riqueza desmedida e à cobiça, morreu pobre, apesar de ser o rei mais poderoso de sua época. Salah al-Din Yusuf ibn Aiub, mais conhecido como Saladino, provavelmente é um dos maiores exemplos de liderança que o mundo graciosamente já testemunhou brilhar.

Saladino era reconhecido por seu cavalheirismo e sua cultura, até mesmo entre os seus inimigos. Ele unificou o mundo muçulmano, derrotou o exército de ocupação cristão deixado pela Segunda Cruzada, defendeu Jerusalém contra a Terceira Cruzada e fundou a dinastia abássida no Egito. (CAWTHORNE, 2010, p. 112)

Infância, juventude e formação

Nascido nas montanhas de Tikrit, na Mesopotâmia, no território que atualmente corresponde ao Estado do Iraque, em 1137 ou 1138 (data de nascimento incerta), Salah al-Din Yusuf ibn Aiub, que significa “Virtude da Fé, José, filho de Jó”, tornou-se popularmente conhecido no Ocidente como Saladino. Filho de Najm ad-Din Aiub, o governante de sua cidade natal, Saladino era curdo e na juventude estudou Teologia em Damasco, na Síria. Sua família havia sido expulsa de Tikrit em 1139.

Pouco se sabe acerca da juventude de Saladino. Diz-se que conhecia o direito, a aritmética, que gostava de biografias de renomados cavaleiros árabes e que possuía um bom senso de história, entre outras coisas. Como todo árabe à época, cresceu escutando histórias sobre os horrores de quando os cristãos tomaram Jerusalém durante a Primeira Cruzada (1096–1099). Tais histórias acabariam por forjá-lo em um ferrenho defensor do Islão e do povo muçulmano sem, contudo, incorrer nas mesmas barbáries executadas pelos latinos.

Saladino era o terceiro filho e, por isso, pouca responsabilidade possuía, diferentemente do primogênito. Tudo mudou quando seu irmão mais velho repentinamente faleceu e o segundo na linha de sucessão, que facilmente irritava a família pelo temperamento inconsequente, acabou privado do poder. Desta forma, Saladino começou a despertar mais e mais o interesse da família.

Ascensão

Após a família de Saladino ser banida de Tikrit, seu pai, Aiub, e seu tio, Asad Ad-Din Shirkuh, declararam lealdade ao futuro mártir muçulmano e então senhor de Mossul e Alepo, Imad ad-Din Atabeg Zengi. Zengi travou uma série de batalhas vitoriosas contra os latinos, conquistando, entre outras cidades cruzadas, a importante Edessa, em 1144 — um dos grandes motivos que desencadearia a Segunda Cruzada (1147–1149), que se mostrou um tremendo fiasco —. Pelo auxílio prestado a Zengi, Aiub foi recompensado com o governo de Baalbek.

Em 1146 Zengi morreu assassinado e uma violenta guerra civil estourou na Síria. A família de Saladino permaneceu fiel a Zengi protegendo o herdeiro designado à sucessão, Nur a o-Din, o qual saiu vitorioso do conflito. Diante do triunfo, a família de Saladino mais uma vez foi recompensada: Aiub se tornou o governador da importante Damasco e Shirkuh o comandante do poderoso exército em ascensão.

Shirkuh, vislumbrando o promissor futuro do sobrinho, integrou-o ao seu estado-maior. Desta forma, Saladino rapidamente subiu na hierarquia militar, o que provavelmente deixou muitos outros militares descontentes. Ademais, Saladino teria se dedicado com afinco aos estudos militares, embora, assim como na sua juventude, seja custoso trazer elementos que comprovariam o aprendizado daquele que se tornaria o maior herói do Islão.

Estátua de Saladino em Damasco, Síria. Fotografia: autor desconhecido.

Estátua de Saladino em Damasco, Síria. Fotografia: autor desconhecido.

A Campanha do Egito

Em meados das décadas de 1150 e 1160, fortes agitações continuavam a solapar o mundo islâmico e cada vez mais se fazia necessária a presença de um líder capaz de unificá-lo sob uma só flâmula. As disputadas entre os próprios muçulmanos eram acirradas e favoreciam os cristãos, que não raramente se apoderavam de cidades e kraks (castelos) árabes enfraquecidos. Grande parte dessa agitação decorria do surgimento da vertente xiita do Islã, uma corrente mais radical que a majoritária, a sunita, da qual o próprio Saladino fazia parte.

No ano de 1164, Nur a o-Din despachou tropas ao Egito para pôr ordem, visto que os xiitas que governavam o país africano se mostravam incapazes de controlar a região. O Egito era governado pelo Califado Fatímida que desde 969 se encontrava no poder. Tradicionalmente, os califas consubstanciavam o poder total do Estado, eram os Chefes de Estado, mas se encontravam em declínio, tendo, inclusive, o califado da África do Norte já sido extinto em 1048. O califado do Egito, em franco declínio, não passava de um fantoche nas mãos dos vizires (vizir: uma espécie de governante, ministro).

A instabilidade no Egito aumentava e as ambições dos cruzados também. Nur a o-Din sabia da vital importância de se manter a região muçulmana, decidindo-se por restabelecer a ordem e enviando Shirkuh como chefe da expedição militar. Shirkun teria feito questão de levar o sobrinho, Saladino, consigo.

O jovem califa do Egito, Al-Adid, surpreendeu ao conseguir uma aliança militar com o Reino de Jerusalém, um Estado cristão (e o maior motivo de disputa das Cruzadas). Nos bastidores, Shawar, um influente e poderoso vizir egípcio, havia articulado a aliança, na tentativa de conter a intromissão de Nur a o-Din. Apesar da aliança, o exército de Nur a o-Din logrou diversas vitórias até conquistar a capital do Egito, Cairo. Em algumas dessas batalhas o jovem Saladino teria demonstrado seu peculiar gênio militar.

Conquistado o Egito, Shirkun se tornou o regente em 1169, mas teria falecido de modo bizarro algum tempo depois: engasgado durante um banquete. Afirma-se que Saladino teria se tornado vegetariano com receio de incorrer no mesmo fim.

Xirkuh [Shirkuh] foi proclamado rei do Egito, mas morreu dois meses depois, enquanto se esbaldava em um banquete fartamente servido de carneiros, cabras e codornas no espeto. Segundo o escritor paquistanês Tariq Ali, autor de O Livro de Saladino, ele se engasgou de tanto comer. Saladino teria ficado tão impressionado com a cena que passou o resto da vida preferindo pratos vegetarianos, como ervilhas cozidas. Outros escritores, porém, cogitam a hipótese de envenenamento. (SGARIONI, 2016, s/p)

Com Shirkuh morto, Saladino assumiu o posto do tio. Nur a o-Din acreditava que o sobrinho de Shirkun, por não ser inexperiente na política, não lhe traria maiores problemas, permanecendo preso às suas ordens. Saladino assumiu como vizir egípcio.

O Sultão do Egito

Com maiores poderes, Saladino reformulou as forças armadas do Egito ao modo curdo/turco de lutar, administrou bem os cargos de confiança a fim de evitar eventuais traições e parecia satisfeito. Parecia. O histórico líder islâmico se preparava para uma grande campanha de restauração do seu mundo.

Desenho do século XV: Saladino, rei do Egito. Imagem: autoria desconhecida.

Desenho do século XV: Saladino, rei do Egito. Imagem: autoria desconhecida.

Ajustes internos concluídos, Saladino se lançou decididamente contra o califado dos fatímidas a fim de encerrá-lo, fato concluído em 1171, com a morte de Al-Adid aos 22 anos de idade. Assim, tornou-se sultão do Egito, um cargo absoluto e sem sujeição, mas estranhamente abaixo do califa (que já não existia mais). Saladino eliminou vizires, conspiradores e outros que ameaçavam seu poder, para dar prosseguimento às novas reformas internas.

Saladino também se mostrou um hábil e humano administrador, o que lhe gerou um profundo respeito perante as massas. A lealdade selada do seu povo lhe facilitaria a conquista do Reino de Jerusalém futuramente.

O governo de Saladino foi o mais popular da história. No Cairo, era adorado pela população por sua simplicidade e por ter recuperado a economia local. “Para merecer o respeito do povo, e em particular de nossos soldados, devemos nos acostumar a comer e vestir como eles”, ele dizia. “Ao contrário dos califas fatímidas, Saladino não exigia que o povo pagasse imposto para ele acumular uma fortuna pessoal. Recompensava muito bem seus soldados e impedia que o país fosse assolado pela fome”, afirma o escritor Tariq Ali. (SGARIONI, 2016, s/p)

O poder absoluto

Como supramencionado, as décadas de 1150 e 1160 também foram marcadas pelo empenho de Nur a o-Din em conter os cristãos instalados na Terra Santa. Eram constantes os massacres de árabes perpetrados por guerreiros cruzados que, segundo amplamente se afirma na literatura referenciada, mais se assemelhavam a bárbaros cegos por pilhagens e perversões do que cristãos em busca da salvação divina. Saladino, agora à frente da lança de guerra de Nur a o-Din, iniciou os preparativos para sua estreia na função há muito almejada.

Em 1174, Nur a o-Din morreu e Saladino, que não seria o escolhido para a sucessão, invadiu a Síria com seu exército a fim de assumir as rédeas do comando. Um longo debate entre os vizires teria sido feito, de onde restou acordado que Saladino era a melhor opção para suceder o líder recém-falecido. Seu excelente histórico militar e a longa dedicação de sua família a Zengi e ao próprio Nur a o-Din o faziam uma escolha lógica. Mais uma vez, não se sabe ao certo como tudo teria se desenrolado, mas é fato que Saladino domou o poder total.

Obstinado a concretizar a unificação do mundo árabe. Uma vez mais se lançou em uma campanha, ora diplomática ora beligerante, de aproximadamente 12 anos conseguindo unificar os territórios muçulmanos da Síria, Mesopotâmia, Palestina e Egito. Resistiu a inúmeras tentativas de assassinato, eliminou conspiradores e pequenas dissidências.

A Jihad, a Guerra Santa

Quando Deus me deu a terra do Egito, eu tinha a certeza de que ele pretendia me dar também a Palestina — teria dito Saladino.

Com a órbita islâmica restabelecida, havia chegado a vez dos reinos latinos criados durante a Primeira Cruzada (1096–1099) sumirem da região. Em 1186, os Estados cruzados na Palestina, onde ainda se situa Jerusalém, viram-se completamente cercados pelo novo e impressionante poder de Saladino. Havia chegado a hora da Jihad.

Com o Islã unificado, Saladino se tornou o soberano mais poderoso da época. Naquele tempo Damasco, Cairo e Bagdá somavam uma população de cerca de 2 milhões de habitantes. Já Paris e Londres tinham menos de 50 mil moradores cada uma. (SGARIONI, 2016, s/p)

O rei consorte de Jerusalém, Guy de Lusignan, contrariado com os acontecimentos que cada vez mais o colocavam em uma difícil situação, expediu ordem para que todas as guarnições de castelos e fortificações fossem reunidas na formação de um grande e poderoso exército, que se lançou incessante e imprudentemente no encalço da força muçulmana.

A Batalha de Hattin e a tomada de Jerusalém

A disputa decisiva entre cristãos e muçulmanos ocorreu em 4 de julho de 1187, na chamada Batalha de Hattin — ou dos Chifres de Hattin —, e representou o controle da cidade sagrada de Jerusalém. O resultado da luta se mostrou um completo desastre para os defensores da cidade (cristãos), que tiveram seu exército literalmente destroçado pelas forças islâmicas.

Batalha dos Chifres de Hattin (1187), de Gustave Doré.

Batalha dos Chifres de Hattin (1187), de Gustave Doré.

Os muçulmanos, sabendo que os cruzados não poderiam lutar longe de seus recursos, mantiveram distância no deserto, ao passo que a imprudência do alto comando cristão cada vez mais se lançava à morte certa. Quando sedentos e em número bastante reduzido, os cruzados foram surpreendidos por um forte ataque executado pelas tropas de Saladino.

A derrota em campo também assegurou que Guy de Lusignan e Reinaldo de Châtillon, um poderoso líder de cavalaria, fossem presos, sendo Guy libertado, com a condição de que não mais travasse guerras na Arábia, e Reinaldo decapitado, talvez, pelo próprio Saladino. Reinaldo era responsável pela quebra de diversas tréguas e tratados de paz — normalmente Châtillon massacrava caravanas e aldeias de muçulmanos.

Com o histórico triunfo de Saladino em Hattin, a conquista da cidade sagrada de Jerusalém seria questão de tempo para os muçulmanos — ocorrendo finalmente em 2 de outubro do mesmo ano após um curto cerco —. Diferentemente do ocorrido quando os cristãos conquistaram Jerusalém, Saladino e as tropas muçulmanas respeitaram os cristãos.

A obra Saladino e Guy de Lusignan após a Batalha de Hattin, de Said Tahsine. Saladino logo depois teria ordenado a libertação de Lusignan e realizado a famosa – e ofensiva – proposta aos soldados da Cruz, o que desencadeou o famoso sacrifício de centenas de bravos guerreiros da Cristandade.

A obra Saladino e Guy de Lusignan após a Batalha de Hattin, de Said Tahsine. Saladino logo depois teria ordenado a libertação de Lusignan e realizado a famosa – e ofensiva – proposta aos soldados da Cruz, o que desencadeou o famoso sacrifício de centenas de bravos guerreiros da Cristandade.

Doravante, desguarnecidas pela anterior ordem de Guy Lusignan para criar o forte exército que acabou vencido em Hattin, as cidades de Tiberias, Acre, Toron, Beirute, Sindon, Nazaré, Cesareia, Nablus, Jafa e Ascalon também foram subjugadas diante do grande poder de Saladino.

O sacrifício dos templários e hospitalários

O fiasco de Hattin também abarcou um episódio que teria impressionado Saladino e seu estado-maior: após a derrota das forças defensoras de Jerusalém, os monges guerreiros da Cristandade — templários e hospitalários — deram sua última prova de fé: a vida. Embora trágico, o sacrifício coletivo timbrou a devoção das ordens religiosas e foi glorificado por diversas ordens semelhantes.

Em meio à desgraça total, um pequeno grupo de cavaleiros ainda permanecia em pé e com elevado número de sobreviventes para sua categoria, eram os templários e hospitalários. Dos 600 que teriam iniciado a luta, acredita-se que aproximadamente 250 tenham sobrevivido e Saladino lhes fez uma oferta visando testar seu fervor a Cristo.

Saladino era conhecido — entre aliados e adversários — por sua sabedoria, serenidade e por honrar sua palavra. Também havia criado laços de respeito com adversários, como Balduino IV (antigo rei leproso de Jerusalém). Contudo, apesar de misericordioso, era feroz no campo de batalha e estava bastante irritado com a violação dos termos de paz por Reinaldo de Châtillon (por isso o teria matado).

Afirma-se que Saladino reuniu os templários e hospitalários e “pediu” que renegassem a cruz, dando sua palavra de que todo aquele que cumprisse a oferta seria libertado, mas, do contrário, seria morto por decapitação. Dos 250 monges que receberam a oferta de liberdade, 250 a recusaram. Todos foram mortos.

À esquerda um cavaleiro templário, à direita um hospitalário. Imagens: autores desconhecidos.

À esquerda um cavaleiro templário, à direita um hospitalário. Imagens: autores desconhecidos.

Os templários e hospitalários ficaram conhecidos por sua forte devoção a Cristo e incrível fúria em combate. Os templários (Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão), sem dúvida, tornaram-se a marca registrada das Cruzadas. “Os Templários provaram ser o primeiro exemplo de uma devoção imensamente popular que se espalhou pela Europa e pelo Oriente Próximo.” Sua túnica era branca com uma cruz vermelha em seu peito.

Semelhantes aos famosos templários, a Ordem dos Hospitalários (derivado do Hospital de São João Batista de Jerusalém), inicialmente, apenas se destinava aos cuidados de peregrinos na Terra Santa, mas logo seus monges pegaram em armas e marcharam. Sua túnica era negra com uma cruz branca em seu peito.

A Terceira Cruzada

Também denominada como a Cruzada dos Reis (1189–1192), por abarcar os três mais poderosos monarcas da Cristandade, quais sejam: Ricardo I (Coração de Leão), da Inglaterra, Filipe II, da França, e Frederico Barba-Ruiva (Barbarossa), do Sacro Império Romano-Germânico, a Terceira Cruzada havia sido convocada pelo Santo Padre Gregório VIII após a perda do Reino de Jerusalém.

Os reis da Terceira Cruzada (1189-1192): Frederico Barbarossa, da Germânia; Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra; e Filipe II, da França, respectivamente. Pinturas: Christian Siedentopf; Merry Joseph Blondel; e Louis Félix Amiel, respectivamente.

Os reis da Terceira Cruzada (1189-1192): Frederico Barbarossa, da Germânia; Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra; e Filipe II, da França, respectivamente. Pinturas: Christian Siedentopf; Merry Joseph Blondel; e Louis Félix Amiel, respectivamente.

Diferentemente das cruzadas anteriores, onde o papado possuía relevante destaque, a terceira edição possuiu um aspecto regiamente romântico. “O papado teve parte secundária nessa expedição; estava em uma de suas fases de fraqueza; a cruzada foi mais principesca, cavalheiresca e romântica de todas. As acrimônias e asperezas religiosas eram mitigadas pela galanteria cavalheiresca que por igual dominava tanto Saladino quanto Ricardo (Coração de Leão). O apaixonado do pitoresco e do romântico pode ir buscar nos romances desse período o perfume da época.” (WELLS, apud: VILAR, 1960, p. 78).

Tragicamente, em 10 de junho de 1190, durante marcha em direção à cidade de Jerusalém, Frederico Barbarossa morreu afogado ao tentar atravessar o rio Saleph, na atual Turquia. Frederico já era idoso e o frágil corpo cada vez mais sentia o peso da couraça, mas seu caráter beligerante e ambicioso ainda tentou arrebatá-lo à última e histórica campanha: a Terceira Cruzada. Fato não concluído.

Em 1191, Ricardo Coração de Leão, recém-desembarcado na Terra Santa, juntou-se a Filipe II, para intensificar as operações de cerco à cidade de Acre (atual Akko, em Israel), que havia sido iniciado há dois anos, em 1189. Utilizando seus dois xodós — imensos e poderosos trabucos (trebuchet) — apelidados de Catapulta de Deus e Mal Vizinho (ou Vizinho do Mal), Ricardo Coração de leão derrotou os defensores muçulmanos e conquistou a cidade em apenas seis semanas.

Vitória no Cerco do Acre (1189-1191): Ricardo I e Felipe II triunfam. Pintura: Merry Joseph Blondel.

Vitória no Cerco do Acre (1189-1191): Ricardo I e Felipe II triunfam. Pintura: Merry Joseph Blondel.

Após o cerco de Acre, a Cruzada dos Reis se dissolveu, quando Filipe retornou à França, deixando Ricardo sozinho para enfrentar Saladino. A constante rivalidade entre os reis Ricardo e Filipe, que não raramente discordavam calorosamente sobre os rumos da invasão, aliada a alguns problemas de saúde deste e agitações internas na França forçaram o retorno prematuro do soberano francês.

Ainda em 1191, Saladino, subestimando o comando do monarca inglês, acabou sendo facilmente derrotado por Ricardo I em Arsuf, mas o impediu de dominar Jerusalém, ao empreender um recuo tático. Nesse recuo, Saladino executou a tática da terra arrasada/seca com perfeição, privando os cruzados de recursos imprescindíveis e impossibilitando a conquista do Reino de Jerusalém. Poços de água haviam sido envenenados e lavouras antecipadamente colhidas ou destruídas. Um ano de lutas ainda se seguiu até Saladino e Ricardo Coração de Leão pactuar um tratado. A paz foi feita. A Cruzada dos Reis estava oficialmente encerrada em 1192.

Ficou acordado que os cristãos permaneceriam com uma estreita faixa de terra na Palestina e que teriam acesso a Jerusalém, assim como a outros locais sagrados. A essa altura, Saladino e Ricardo I, embora de lados opostos, haviam criado um grande respeito mútuo. O tratado, contudo, não foi bem aceito pelos cristãos, que mais tarde deflagrariam nova cruzada, a quarta.

O tratado estabelecia o reconhecimento da posse de uma estreita faixa do litoral sírio-palestino aos ocidentais e a permissão das peregrinações dos cristãos a Jerusalém. Saladino manifesta, nesse tratado, seu perfil de hábil líder militar e diplomático que via na tolerância para com os cristãos um dos caminhos de continuidade de seu projeto de unidade islâmica. (…) Por sua vez, Ricardo Coração de Leão seria acusado de pactuar com o inimigo. (FERNANDES, 2011, p. 119)

Último ano, 1193

No ano seguinte, em 1193, Saladino retornou à sua capital, Damasco, na Síria. No dia 4 de março do mesmo ano, com aproximadamente 55 anos de idade, o maior herói do Islão finalmente descansou, morto pela febre amarela. Contudo, em paz por ter salvado seu mundo e ganhado o respeito de aliados e adversários.

Um fato intrigante sobre sua morte é que, apesar de ser o mais poderoso rei de sua época, Saladino teria morrido pobre. Saladino valorizava a simplicidade das coisas e rejeitava a cobiça. Sobre esta, o líder curdo acreditava ser reservada a homens inseguros.

Tumba de Saladino em Damasco, na Síria. Fotografia: Godfried Warreyn.

Tumba de Saladino em Damasco, na Síria. Fotografia: Godfried Warreyn.

Diz-se que Saladino se sentia mais que satisfeito por gozar do padrão de vida de rei e não vislumbrava sentido na acumulação de bens. Quando faleceu, “como não possuía terras, ouro, nada de valor, seus seguidores pediram dinheiro emprestado para a argila seca que cobriria a sepultura. Afirma-se que, no leito de morte, o sultão disse: “Espetem um trapo em meu porta-bandeira e mostre ao povo que isso é tudo o que o Rei do Oriente levará ao túmulo.” (SGARIONI, 2016, s/p)

REFERÊNCIAS:
CAWTHORNE, Nigel. Os 100 Maiores Líderes Militares da História. trad. Pedro Libânio. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.
CUMMINS, Joseph. As Maiores Guerras da História. trad. Vania Cury. Rio de Janeiro: Ediouro, 2012.
FERNANDES, Fátima Regina. Cruzadas na Idade Média. In.: MAGNOLI, Demétrio (org.). História das Guerras. 5 ed. São Paulo: Contexto, 2011.
GILBERT, Adrian. Enciclopédia das Guerras: Conflitos Mundiais Através do Tempo. trad. Roger dos Santos. São Paulo: M. Books, 2005.
JESTICE, Phyllis G. História das Guerras e Batalhas Medievais. O Desenvolvimento de Técnicas, Armas, Exército e Invenções de Guerra na Idade Média. trad. Milton Mira de Assumpção Filho. São Paulo: M. Books, 2012.
SGARIONI, Mariana. As mil e uma noites de Saladino. Acesso em: 10 jan. 2016.
VILAR, Leandro. A história por trás de Assassin’s Creed. Acesso em: 9 jan. 2016.
WATERSON, James. Espadas Sacras: Jihad na Terra Santa, 1097-1291. trad. Giancarlos Soares Ferreira. São Paulo: Madras, 2012.
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