Os zoológicos humanos

Curiosidades, Século XIX, Século XX Os zoológicos humanos
* Por Talita Lopes Cavalcante


Zoológicos humanos: cartão postal mostrando javanesas Kapong que foram exibidas em jaulas durante a Exposição Universal de Paris de 1889, que marcou a inauguração da Torre Eiffel.

Zoológicos humanos: cartão postal mostrando javanesas Kapong que foram exibidas em jaulas durante a Exposição Universal de Paris de 1889, que marcou a inauguração da Torre Eiffel.

Os chamados “zoológicos humanos” eram bastante populares na Europa e na América do Norte ao longo do século XIX e início do século XX. Também conhecidas como “vilas de negros” ou “exposições etnológicas”, estas exposições ficaram marcadas como exemplos perversos do tipo de olhar que as sociedades ocidentais construíram sobre outros povos e culturas neste período. A última dessas exposições ocorreu em 1958, em Bruxelas, na Bélgica, onde o que era considerada pelos expositores como uma “autêntica família de um vilarejo do Congo” foi exposta em uma jaula.

Zoológicos humanos

Os zoológicos humanos traziam como argumento questionável de sua existência o estudo das diferentes etnias, servindo para justificar teses absurdas, como a que afirmava que o negro africano seria o elo biológico entre o homem branco ocidental e o macaco. Entretanto, em termos práticos, o que era visto nestas exposições eram homens, mulheres, idosos e crianças de diversas etnias como africanas, indígenas ou esquimós encarcerados em jaulas, como animais, ou em espaços que imitassem seus “ambientes naturais” (ou estado primitivo); tudo isso observado por olhos curiosos dos visitantes brancos que iam ver como essas pessoas supostamente viviam em suas sociedades.

Os zoos com humanos eram tão populares à época que diversos deles foram construídos ao redor do mundo, em países como Inglaterra, França ou Estados Unidos. Na Alemanha, por exemplo, chegou a ser cunhado nestes anos um termo específico para esse tipo de show: Völkerschau. Outro argumento utilizado na defesa destas exposições se encontra na intenção de enfatizar as diferenças culturais e de evolução tecnológica entre europeus e povos não europeus, procurando, por meio destas, atestar uma suposta superioridade ocidental nestes aspectos de comparação. Para tanto, não raramente estas exposições colocavam pessoas enjauladas juntamente com animais como macacos, numa tentativa de mostrar ao público que aqueles povos e suas culturas deteriam mais semelhanças com o mundo animal do que com o humano.

A partir do século XX, a rejeição a tais exposições começou a crescer, em virtude tanto das condições degradantes e perversas para com a dignidade humana daqueles que eram expostos, quanto por conta do caráter explicitamente discriminatório e racista intrínseco à esta prática, o que culminou com seu gradativo desaparecimento.

Fotos dos zoos humanos

Guerreiros da tribo Nyambi (África) são exibidos no jardim zoológico da Acclimation de Paris, em 1937.

Guerreiros da tribo Nyambi (África) são exibidos no jardim zoológico da Acclimation de Paris, em 1937.

Cartaz racista da época compara indígenas com animais.

Cartaz racista da época compara indígenas com animais.

Garota africana é exibida em Bruxelas, Bélgica, em 1958.

Garota africana é exibida em Bruxelas, Bélgica, em 1958.

Índios Galibi, que viviam no Oiapoque são exibidos na jaula em um espetáculo etnológico no jardim zoológico da Acclimatation, em Paris, em 1893.

Índios Galibi, que viviam no Oiapoque, são exibidos na jaula em um espetáculo etnológico no jardim zoológico da Acclimatation, em Paris, em 1893.

Strinée (fotografada por Louis Rousseau) da tribo Khoisa, com nádegas extremamente proeminentes. Esse tipo de exibição era uma das atrações na Europa no fim do século XIX. A mais famosa negra nos zoológicos foi Saartje Baartman, conhecida por “Vênus Hotentote”, que foi exibida pela primeira vez em Londres, em 1810.

Strinée (fotografada por Louis Rousseau) da tribo Khoisa, com nádegas extremamente proeminentes. Esse tipo de exibição era uma das atrações na Europa no fim do século XIX. A mais famosa negra nos zoológicos foi Saartje Baartman, conhecida por “Vênus Hotentote”, que foi exibida pela primeira vez em Londres, em 1810.

Casal de noivos da tribo Zulu, levados da África para exibição em um parque em Londres em 1896.

Casal de noivos da tribo Zulu, levados da África para exibição em um parque em Londres em 1896.

Fotografia das jaulas da exposição no Champs de Mars, Paris, em 1895, com mais de 300 nativos capturados no Senegal e no Sudão.

Fotografia das jaulas da exposição no Champs de Mars, Paris, em 1895, com mais de 300 nativos capturados no Senegal e no Sudão.

Guillermo Antonio Farini posa com pigmeus no Royal Aquarium de Londres, em 1888.

Guillermo Antonio Farini posa com pigmeus no Royal Aquarium de Londres, em 1888.

Anúncio publicitário do grande “espetáculo” de Guillermo Antonio Farini, onde adultos e crianças da tribo dos bosquímanos (bushmen), nativos da África do Sul, Botswana e Namíbia seriam exibidos em Paris entre 1898 e 1905.

Anúncio publicitário do grande “espetáculo” de Guillermo Antonio Farini, onde adultos e crianças da tribo dos bosquímanos (bushmen), nativos da África do Sul, Botswana e Namíbia seriam exibidos em Paris entre 1898 e 1905.

Referências:
From human zoos to colonial apotheoses: the era of exhibiting the Other” by Pascal Blanchard, Nicolas Bancel, and Sandrine Lemaire.
O animal humano“. Semióticas.
Human Zoos. Farris State University.
Calendário escrito à época avisando sobre as exposições humanas. The Independent. Jul 13, 1914.
KELLER, Mitch. “The Scandal at the Zoo”. New York Times.